O ser humano é muito inteligente. Hábil nas suas espertezas, aprendeu a lidar com todos os desafios existentes desde a fundação da Terra. A falta de luz, o frio, a fome, a comunicação, os números e o comércio. Desde os tempos mais remotos, o homem vem encontrando soluções para todos os tipos de problema que ele acumula, seja por seu próprio esforço, seja dada a circunstância. Os recursos estão à mão de quem quer ou precisa atender alguma necessidade. Cartões de créditos, gasolina, floriculturas e lojas de conveniência não são um décimo de todas as facilidades que estão em cada esquina da nossa casa com TVs em cada cômodo, banheiros com chuveiros quentes e uma agradável área de lazer para receber os amigos e a família.
O homem conseguiu lidar com os atos mais desumanos e baixos que lhe são natos. Ele sobreviveu a guerra, reconstruiu países inteiros, acomodou-se entre animais selvagens e plantas venenosas, firmou casa em continente tão gelado quanto os desertos mais quentes. Em termos de século 21, sobrevivemos até ao sucesso Justin Bieber e à morte de Amy Winehouse e, ironicamente, passamos bem. Se você der um lento giro de 360º no local onde você está, seja na fila do banco, pois, enquanto espera pela sua vez de ser atendido, você lê esse humilde texto no seu iPhone, iPad ou qualquer outro i alguma coisa que permite o acesso a quem vos fala, seja no conforto da sua cadeira de escritório, você perceberá que o que quiser ou precisar para resolver um problema que ainda nem existe já está ali, ou em algum lugar que você conheça, ou na padaria da sua preferência, ou no país que você, turisticamente, visitou no mês passado. Não há limites para o que o homem quer construir, nem para degradar. Ele aprendeu a lidar com quase tudo. Menos com a solidão.
Você pode ter um belo celular, uma conta no Skype e um email frenético onde chegam todos os emails com arquivos em ppt da sua mãe ou da sua tia. Você pode baixar quantos aplicativos quiser, quantos puder comprar. A evolução queimou as cartas e também faz isso mensalmente com algum aparelho de comunicação velho durante o lançamento de um novo. Você passa o dia conectado a tantas contas e dispositivos que nem se lembra de que, antigamente, para se comunicar, o homem só precisava querer. Hoje, precisa. A noite, antes de dormir, você ainda dá aquele último F5 no email para se certificar que ninguém ficará sem resposta e você não perderá as fotos do final de semana sensacional na casa do Pedro. E ao desligar todos os sistemas, vem a solidão. Pessoas cada vez mais cheias de vazio que só se percebe quando elas se tratam como prioridade. Deixamos tanto de ser pessoais, que estamos só de nós mesmos. Falo como alguém que rejeita abraço e lida bem com a solidão. Em suas camas, se deitam com seus travesseiros. Suas mãos costumam segurar chaves e contas a pagar. O único beijo dado no dia foi enviado de longe num tchau tão breve que quase passou em branco. Você dança a dança da solidão num ritmo em que, o velho “dois pra lá e dois pra cá”, agora é “um pra lá e um pra cá”.
Não aprendemos a lidar com a solidão, mas aprendemos a arte do caras e bocas para não tornar isso aparente. Aprendemos que desculpas são melhores que realidades, e que ninguém saberá se você fingir. A verdade é que, no fundo, todo mundo sabe. Talvez fosse mais fácil mentir, mas até mesmo a solidão é produto nosso. Da nossa capacidade de estar cada vez mais perto e ser cada vez mais distante, de parecer cada vez mais satisfeito e estar cada vez menos saciado, de aparentar cada vez mais saúde e equilíbrio e ser cada vez menos amado e amável. Não há muito o que se fazer, pois atingimos o estágio da consciência e da preguiça. Estamos imersos na apatia, sob o manto do “eu não consigo”.
Eu não tento. Conformei. Em breve, trocarei meu celular por um modelo mais moderno e quero um computador novo. Penso em criar um novo blog. Penso em criar projetos que me satisfaçam. Penso que farei o que puder ser feito não para curar a doença da solidão, já que ela não é minha prioridade, mas se não posso tapar o sol com a peneira, vou ficar de costas que pelo menos posso ignorar o problema. É o que todo mundo faz.



